sexta-feira, dezembro 09, 2005

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Por onde começar? Pelo começo
absoluto, pelo rio Oceano
já que le é, segundo o poeta cego
em cujo canto a terra e o céu escampo
e o que é e será e não é mais
e longe e perto se abrem para mim,
pais das coisas divinas e mortais,
seu líquido princípio, fluxo e fim:
pois ele corre em torno deste mundo
e de todas as coisas que emergiram
das águas em que, após breves percursos,
mergulharão de novo um belo dia;
e flui nos próprios núcleos e nos lados
oculto dessas coisas, nos quais faz
redemunhos pro cujos centros cavos
tudo o que existe ecoa sem cessar
de volta àquelas águas de onde surge:
não me refiro à água elementar
que delas emana e nelas se confunde
com os elementos terra, fogo e ar
mas a águas que nunca são as mesmas:
outras e outras, sem identidade
além do fluxo, nelas só lampeja
a prórpia mutação, sem mais mutante:
um nada de onde tudo vem a ser,
escuridão de onde provém a luz,
tal Oceano é a mudança pura.
Mas eis que a poesia nos conduz,
Feito um repuxo e a seu bel-prazer,
De volta do princípio às criaturas.
Prólogo, Antonio Cícero

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