terça-feira, dezembro 13, 2005

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Fragmentos de músicas vêm a todo momento à minha mente...fragmentos de uma vida passada, presente.
Pedaços de você que me corroem como ácido, pedaços de uma lembrança que há muito luto para esquecer.
Por que as coisas precisam acontecer assim???
Ainda busco entender...

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade...
A núvem que arrastou o vento norte...
--- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...
Florbela Espanca

sexta-feira, dezembro 09, 2005

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Por onde começar? Pelo começo
absoluto, pelo rio Oceano
já que le é, segundo o poeta cego
em cujo canto a terra e o céu escampo
e o que é e será e não é mais
e longe e perto se abrem para mim,
pais das coisas divinas e mortais,
seu líquido princípio, fluxo e fim:
pois ele corre em torno deste mundo
e de todas as coisas que emergiram
das águas em que, após breves percursos,
mergulharão de novo um belo dia;
e flui nos próprios núcleos e nos lados
oculto dessas coisas, nos quais faz
redemunhos pro cujos centros cavos
tudo o que existe ecoa sem cessar
de volta àquelas águas de onde surge:
não me refiro à água elementar
que delas emana e nelas se confunde
com os elementos terra, fogo e ar
mas a águas que nunca são as mesmas:
outras e outras, sem identidade
além do fluxo, nelas só lampeja
a prórpia mutação, sem mais mutante:
um nada de onde tudo vem a ser,
escuridão de onde provém a luz,
tal Oceano é a mudança pura.
Mas eis que a poesia nos conduz,
Feito um repuxo e a seu bel-prazer,
De volta do princípio às criaturas.
Prólogo, Antonio Cícero